A saga de amores e desencontros entre Carlos Tevez e Juan Román Riquelme escreverá mais um capítulo neste sábado, marcado pelas tensões que há anos separam dois ícones do clube. Um conflito que teve início na seleção argentina e se estendeu até os últimos dias do Apache no clube, incluindo aquela noite em que deixou a Bombonera abraçado ao atual presidente, apesar das evidentes diferenças entre eles. Embora Tevez já tenha enfrentado o Rosario Central no estádio do Boca – em um empate sem gols em 2022 -, o jogo contra o Talleres terá um sabor especial: apenas um dos times avançará às quartas de final do torneio Clausura, tornando o contexto desse duelo ainda mais instigante.
Batalhas de egos, invejas, disputas de poder e interesses políticos cruzados acabaram por desgastar uma relação que começou bem e terminou mal. Tevez e Riquelme compartilharam apenas oito jogos no Boca: um em 2001, no dia da estreia de Carlos, contra o próprio Talleres, com Carlos Bianchi como técnico, e sete em 2002, sob o comando de Oscar Tabárez. Era a despedida do ídolo, após brilhar nas Copas Libertadores e Intercontinental, e o surgimento do jovem que claramente despontava como seu sucessor, não pelas habilidades futebolísticas – Tevez era mais atacante – mas pela identidade e conexão imediata com a torcida. Nesse breve período, a diferença de idade evitou que se tornassem amigos, mas trocavam elogios e pareciam cúmplices nos treinos na Casa Amarilla. Dentro e fora do campo, falavam a mesma língua.
No entanto, tudo começou a ruir em 2007, durante o segundo ciclo de Alfio Basile na seleção. Ambos estiveram na primeira convocação de Coco no ano anterior, na derrota por 3 a 0 para o Brasil, e após aquele jogo Riquelme renunciou à seleção por motivos pessoais – segundo ele, devido ao sofrimento de sua mãe com as críticas a Román. A equipe jogou várias partidas sem ele, mas Basile decidiu convocá-lo novamente para a Copa América da Venezuela, logo após se destacar na Libertadores no Boca.
A volta de Riquelme não agradou a parte do elenco: alguns jogadores sentiram que o camisa 10 tinha liberdade para se ausentar e voltar quando quisesse, mesmo não sendo utilizado no Villarreal e sem clube até dezembro, o que o faria jogar pela seleção sem ritmo de competição. De certa forma, esse retorno fraturou o grupo, e Tevez foi um dos mais insatisfeitos. Além disso, Riquelme foi titular na Copa América e foi o próprio Apache quem deixou o time, embora tenha retornado na semifinal contra o México e começado a final contra o Brasil.
Após a Copa América, a Argentina iniciou as eliminatórias para a Copa do Mundo de forma irregular: três vitórias iniciais e apenas uma vitória nos sete jogos seguintes, com quatro empates e duas derrotas. Embora a equipe estivesse em quarto lugar, Basile decidiu deixar o cargo: suspeitava que parte do time estava conspirando para sua saída e a chegada de Diego Maradona, versão que ele ouviu diretamente de Riquelme. “Os baixinhos nos apunhalaram pelas costas”, insinuou Coco mais tarde. Seu último jogo foi uma derrota no Chile, onde nem Román nem Carlitos puderam estar, por acumulação de cartões amarelos.
Em 2015, um ano após a despedida de Riquelme do Boca, Tevez voltou ao clube pelas mãos de Daniel Angelici, aliado de Mauricio Macri, com quem Carlos havia se tornado amigo e que mantinha um confronto político e pessoal com Riquelme. Em 2017, depois de várias críticas públicas de Riquelme à equipe e da saída de Tevez para a China, Carlos atacou diretamente Román: “Quando ele teve que sair do Boca, foi primeiro para o Barcelona e depois para o Villarreal. Eu tive que viver um ano e meio em que, quando perdíamos, ele saía para falar e criticar os jogadores do Boca; quando o River ganhava, ele dizia como o time de Gallardo jogava bem e, quando ganhamos o campeonato, disse que uma Libertadores valia 10 títulos”. E continuou disparando: “Riquelme é um ídolo do clube e sempre será pelo que fez em campo, mas fora dele deixa muito a desejar”.
No final de 2019, a chapa Jorge Ameal-Mario Pergolini-Román Riquelme venceu as eleições no Boca, quando Tevez já havia retornado da China. Embora não fosse titular indiscutível na era de Gustavo Alfaro, o atacante continuava sendo uma referência no elenco, e ambos os ídolos concordaram, sem dizerem em voz alta, em manter a paz. Tevez teve um ótimo início de ano e liderou a equipe na conquista da Superliga 2019/2020, com aquele gol incrível contra o Gimnasia de Diego Maradona que tirou o troféu das mãos do River de Marcelo Gallardo.
No entanto, a relação entre Tevez e Riquelme nunca mais se endireitou. Em meio à pandemia, a quatro meses do fim do contrato do capitão, outro conflito eclodiu. Do Conselho de Futebol, braço executor de Riquelme, partiram os ataques mais duros: Raúl Cascini afirmou que Tevez era “um ex-jogador” desde a chegada da nova gestão, e Jorge Bermúdez publicou nas redes sociais uma nota que expunha os laços de Carlitos com o macrismo e mencionava uma suposta ambição política de se candidatar à presidência do clube. Riquelme permaneceu publicamente neutro, mas também não interveio para amenizar a crise, aparecendo apenas quando a situação já estava quente para acertar as questões contratuais e garantir a continuidade de Tevez, mesmo o vendo como um adversário político. Alguns meses depois, uma foto de Apache ao lado de Angelici em Pinamar, após a conquista da Copa Maradona, selou o destino do atacante.
Tevez permaneceu no Boca por mais um semestre e se aposentou em junho de 2021, afetado pela morte de seu pai e exausto devido às constantes desavenças com a diretoria. De sua coletiva de despedida, saiu abraçado a Riquelme, um gesto mais simbólico do que efetivo para encerrar a disputa.
Em 2022, Tevez foi homenageado na Bombonera por Mauricio Serna antes do jogo contra o Rosario Central; ele dirigia o time adversário.
Carlos retornou à Bombonera em 2022 como treinador do Rosario Central: foi ovacionado por todo o estádio e recebeu reconhecimento de Mauricio Serna, enquanto Riquelme observava tudo do camarote. Neste domingo, ele voltará a enfrentar seu antigo clube, agora à frente do Talleres, após uma campanha irregular que colocou a equipe de Córdoba à beira da zona de rebaixamento, mas também, de forma inesperada, diante da possibilidade de disputar um título. Desta vez, acredita-se que não haverá homenagem especial. Apenas o carinho da torcida, que terá em campo dois dos seus maiores ídolos, mesmo que hoje estejam mais do que nunca em lados opostos.