Pouco mais de 24 horas depois do concerto de Jimi Hendrix em Woodstock, Miles Davis entrou em estúdio para continuar a história. Era 19 de agosto de 1969 e havia reunido uma dúzia de músicos aos quais, com poucas instruções prévias, colocou para gravar o que se tornaria um dos grandes discos do século XX e a obra-prima do jazz elétrico: Bitches Brew. Entre os músicos escolhidos, destacavam-se vários que já tinham renome e prestígio: Chick Corea, Wayne Shorter e até Harvey Brooks, que havia gravado para Bob Dylan e The Doors. Mas a formação também incluía nomes praticamente desconhecidos até então, e talvez o do baterista Lenny White fosse o mais desconcertante deles. Aos 19 anos na época, ele fazia de tudo para ganhar a vida como músico. Enquanto gravava Bitches Brew, tocava jazz tradicional e sucessos de James Brown em festas de casamento.
Nos três anos anteriores, Lenny White havia traçado um plano para tocar com Miles Davis. “Não só queríamos tocar com ele: queríamos ser ele”, diz White. Durante o processo de gravação, Miles Davis não deu muitas instruções e foi menos preciso do que o normal. White se encontrou com músicos renomados no estúdio e Miles disse: “Isto é um grande caldo e você tem que ser o sal”. Muitos músicos já tinham tocado com Miles anteriormente e tinham uma ideia do que esperar, mas para outros, como White, era a primeira vez. O baterista leciona atualmente uma disciplina chamada “A Estética de Miles Davis” na Universidade de Nova York.
Lenny White cresceu rodeado de música e de músicos em Queens. Desde cedo, foi influenciado por grandes nomes do jazz, sendo inspirado por Tony Williams na bateria e cultivando o desejo de tocar com Miles Davis. Ele se tornou um dos substitutos de renomados bateristas, como Art Blakey e Elvin Jones. A participação em Bitches Brew foi um momento marcante em sua carreira, tornando-se uma experiência que sempre irá valorizar.
Após integrar Return To Forever com Chick Corea, White é considerado um dos pioneiros do jazz fusion. Ele acredita que a música é uma herança e que é essencial inovar, desenvolvendo um som único e autêntico. Suas próximas apresentações em Buenos Aires prometem uma conversa musical madura, explorando as particularidades musicais de cada integrante do trio. White reflete sobre o estado atual da música, destacando as mudanças ocorridas e a necessidade de uma nova estética para apreciar as diferentes formas de arte contemporâneas.