Maxi Salas, aquele entregador de empanadas e servente de pedreiro que saiu mal do Racing e se tornou a nova esperança do River

  • Tempo de leitura:7 minutos de leitura

E um dia Maximiliano Salas vestiu a camisa do River. Este sexta-feira, depois de semanas cheias de declarações cruzadas e debates que envolveram todo o futebol argentino, o clube de Núñez oficializou a foto com o atacante vestindo a camisa do time pela primeira vez. Tudo indica, também, que ele será titular neste domingo contra o Platense, no Monumental, pela primeira rodada do torneio Clausura 2025.

O escândalo de proporções bíblicas que se desencadeou no Racing condenou Salas, que passou de ser companheiro de Adrián Maravilla Martínez – o profeta do gol – a ser considerado pelos torcedores como o Judas da equipe dirigida por Gustavo Costas, o pai espiritual a quem ele virou as costas após se deixar seduzir pelos chamados de Marcelo Gallardo para ir ao River. A história começou há vários dias, quando o River ainda estava disputando o Mundial de Clubes nos Estados Unidos. Naquela época, afirmava-se em Avellaneda que Salas havia concordado verbalmente com o novo contrato que o tornaria um dos três mais bem pagos do elenco racinguista e que o atacante apertou a mão do presidente Diego Milito, que acreditava ter neutralizado o risco de perder um jogador importante. No entanto, o ex-jogador e agora dirigente recebeu uma dolorosa lição nesse novo papel que desempenha: sem uma assinatura nos papéis (em uma negociação que se arrastou demais), a palavra pode ceder diante de cifras milionárias. E Salas mudou para o lado do River na Copa Libertadores.

River, impulsionado pelo desejo e insistência de seu treinador, convenceu Salas a executar a cláusula de rescisão, fixada em 8.000.000 de euros, e deixar o Racing. A operação, transformada em uma das grandes novelas do mercado de transferências de inverno, não representou apenas um revés para Milito, Costas e a torcida: também quebrou o famoso pacto de cavalheiros proposto pela Associação de Futebol Argentino, cujas autoridades pediam aos dirigentes que não “roubassem” jogadores por meio de cláusulas de saída.

Salas deixa o Racing repudiado pelos torcedores; como jogador do River, pode enfrentar o Racing nas quartas de final da Copa Argentina e na final da Copa Libertadores.

“Eu sempre digo que é preciso sair bem de todo lugar. Nunca se sabe o que a vida reserva”, sentenciou Salas, o protagonista principal desta história, em uma entrevista ao Olé em junho do ano passado. Naquela época, ele desfrutava de sua estadia no Racing, clube ao qual chegou graças à insistência de Costas, que destacava a franqueza como marca registrada: “Gustavo sempre diz a verdade de frente; isso é bom mesmo que doa. É preciso ser sincero sempre; os jogadores gostam disso”. Agora, em plena pré-temporada no Paraguai, Costas sentiu como se tivesse sido atingido por um trem ao ser comunicado por Salas, um de seus favoritos, que rejeitaria o contrato que tinha em mãos com o Racing e tentaria se transferir para o River.

Comparado por sua potência a Ramón Ismael Medina Bello (atacante que atuou no Racing entre 1986 e 1989), o correntino Salas, de 27 anos, também seguirá os passos do nativo de Gualeguay ao mudar de clube do Racing para o Monumental. A diferença entre os dois está no fato de que Mencho, criado na pensão do Racing, chegou à primeira divisão em tempos de contratos baixos e até hoje é frequentador assíduo das arquibancadas alvicelestes. Para Salas, que teve passagem pelas categorias de base do Racing em 2014 (saindo por falta de espaço para morar entre os jovens talentos), a transferência para o time millonario zerou a conta de simpatia que tinham por ele no Racing: em sites não oficiais de venda de artigos esportivos, as camisas com seu nome e o número 7 estão sendo vendidas a preço reduzido.

O correntino Salas é comparado ao entrerriano Ramón Medina Bello, que atuou no Racing entre 1986 e 1989, antes de ir para o… River.

O reforço do River poderia ter ido para o Boca. Em 2011, com apenas 13 anos, ele deixou sua cidade natal Curuzú Cuatiá para fazer um teste no clube xeneize, impressionou e foi aprovado. “Me disseram ‘venha em janeiro’ [de 2012]. Porém, um mês antes, avisaram que houve uma mudança na diretoria e que eu teria que fazer outro teste, mas eu disse que não”, lembrou em seu momento na ESPN sobre um dos muitos momentos negativos que teve no caminho para se tornar profissional. “Aconteceu com o Boca e fui para o Argentinos e também fiquei, com alojamento e tudo. Joguei na nona divisão e na Liga. Era reserva na AFA, mas jogava pouco e me liberaram. Pensei que meu mundo estava desabando”, descreveu. No entanto, aquela adversidade moldou o caráter do jogador com o qual Gallardo tentará reanimar o espírito de sua equipe: “Estava destruído e chorava, me sentia muito mal, mas tinha na mente chegar à primeira divisão e estava convencido de que conseguiria”.

Enquanto mantinha a convicção de que encontraria seu espaço no mundo do futebol, Salas e seu irmão Joaquín tentavam, junto com seu pai, pagar o aluguel em San Martín, na casa de um amigo de um avô. Destacado por se tornar o primeiro defensor da equipe quando não tem a bola, característica historicamente elogiada por Gallardo, o atacante havia aprendido o sacrifício antes mesmo de se tornar profissional: além de se movimentar pelo campo, seu mapa de calor incluía atravessar ruas como entregador das empanadas que seu pai fazia, e também ajudava como servente de pedreiro. “Venho de uma família muito simples; meu pai trabalhava muito. Ele trabalhou no Exército, depois se aposentou e começou a trabalhar como pedreiro. Fazia jobs e também empanadas. Sempre tivemos um prato de comida graças a esse esforço. Seis meses depois de eu vir jogar, ele veio comigo e fez de tudo”, enfatizou – no Olé – o correntino, cujo salário no River será ainda mais alto do que o que havia acertado com o Racing.

“A mentalidade do jogador precisa ser muito forte tanto nas vitórias quanto nas derrotas. É preciso sempre manter a autoestima; é fundamental a todo momento”, refletiu o próximo reforço do time millonario, que com suas experiências fora de campo configurou parte do que reflete dentro de campo. A despedida de Salas com todos os funcionários do clube e seus agora ex-companheiros foi difícil, que durante a pré-temporada acompanharam as novidades do mercado de transferências. Os líderes do time apoiaram o atacante, apesar de não concordarem com sua decisão, já que o ex-jogador de Palestino e All Boys era desde o início um dos mais queridos do elenco. Até mesmo alguns deram “like” na publicação do Instagram desta quinta-feira, onde ele deu sua versão e criticou a diretoria do Racing. “Olha, em nenhum lugar vão te tratar tão bem quanto aqui”, advertiram sorrindo vários dos membros do grupo, que sonham em levantar o troféu que têm imagens até no vestiário: a Copa Libertadores. Mas não houve forma de convencê-lo.

Salas também manterá esse desejo, mas com a faixa vermelha e branca. Paradoxalmente, o objetivo de glória que até algumas semanas atrás compartilhava no Racing pode tê-lo contra o próprio Racing: o clube millonario e o Racing podem se enfrentar na final do torneio mais prestigioso do continente, em novembro. Mais perto no calendário, ambos os times têm chances de se enfrentar na Copa Argentina, nas quartas de final. “Aconteceu com Salas, mas estamos muito bem. Não podemos nos separar”, enfatizou no sábado Costas, que em algum momento resgatou do ostracismo futebolístico o agora primeiro reforço que Gallardo procurou após a perda de Franco Mastantuono.

Os ricos não pedem permissão foi a novela do mercado que causou alvoroço e quebrou códigos. Salas, o ator principal da história, procurará desfilar no tapete vermelho e branco do River e ganhar os aplausos. No Racing, enquanto isso, ecoa o som de uma porta dos fundos que se fechou estrondosamente. Parece que para sempre.

Alex Barsa

Apaixonado por tecnologia, inovações e viagens. Compartilho minhas experiências, dicas e roteiros para ajudar na sua viagem. Junte-se a mim e prepare-se para se encantar com paisagens deslumbrantes, cultura vibrante e culinária deliciosa!