O povo que passou de local inexplorado a meca do turismo internacional

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Na região sudoeste da província de Santa Cruz está localizada a cidade de El Calafate, às margens do majestoso Lago Argentino, o maior do país. Rodeado por montanhas e glaciares, este canto patagônico oferece paisagens incríveis e uma história que convida à exploração.

As famílias Pantín e Fleire chegaram em 1913 e fundaram o primeiro hotel. Em 1920, o Lago Argentino contava com 204 habitantes, enquanto o Lago Viedma tinha 201 moradores.

Antes mesmo da chegada dos turistas com suas câmeras e bastões de trekking, destemidos viajantes se aventuraram por essas terras, enfrentando desafios e descobrindo maravilhas que hoje nos surpreendem.

Uma das primeiras pegadas nessa história foi deixada em 1867 pela expedição organizada pelo capitão Luis Piedra Buena e liderada por Guillermo Gardiner, que seguiu o curso do rio Santa Cruz até a sua nascente. No trajeto de ida, levaram 33 dias e mais 16 para retornar. Cruzaram o rio Bote, chegaram nas proximidades do que hoje é El Calafate, identificaram o córrego que descia das montanhas e avistaram a Ilha Solitária. Continuaram pelo córrego Malo até chegar ao Lago Roca, realizando reconhecimentos parciais na região e acreditando ser possível encontrar um caminho para o Oceano Pacífico. Essa incursão foi significativa pelo descobrimento efetivo do lago que, posteriormente, seria batizado por Francisco P. Moreno como Lago Argentino.

Com cada expedição, com cada passo na neve ou traço nas águas turquesas, uma epopeia de descoberta e pertencimento foi sendo tecida.

Seis anos depois, em novembro de 1873, o subtenente da Marinha Valentín Feilberg embarcou – com apenas 21 anos e acompanhado por quatro tripulantes da goleta Chubut – em uma audaciosa expedição para explorar o rio Santa Cruz até sua fonte. Partiram em 6 de novembro em um pequeno barco desde a foz do rio, enfrentando uma geografia inóspita e condições brutais: correntes traiçoeiras, vento gelado e provisões escassas. Não conseguiram chegar até o lago, mas antes de retornar, Feilberg deixou um sinal: içou a bandeira argentina em um remo usado como mastro e colocou uma mensagem dentro de uma garrafa. Anos mais tarde, o próprio Perito Moreno encontraria essa mensagem e batizaria o local como “Punta Feilberg”, assegurando assim que esse sobrenome fosse registrado com tintas patrióticas no mapa.

Gardiner e Feilberg não nomearam o grande espelho d’água que encontraram, pois acreditaram que era o mesmo que Francisco de Viedma havia descoberto quase um século antes.

Somente em 1877 o “mistério” seria desvendado. Em outra travessia pioneira, Carlos Moyano e Francisco Pascasio Moreno partiram da Ilha Pavón e navegaram rio acima. Em 15 de fevereiro, Moreno ficou diante das águas geladas e profundas, e pronunciou as palavras que dariam oficialmente o nome ao Lago Argentino. Nessa viagem, também surgiram outros nomes familiares para quem hoje percorre a região: Punta Bandeira, monte Frías, cerro Buenos Aires e Punta Avellaneda. Uma homenagem cartográfica carregada de sentido de soberania.

E no meio dessas histórias épicas, surge o protagonista mais famoso de todos. Hoje o conhecemos como Glaciar Perito Moreno, mas dar a ele esse nome foi parte de uma longa jornada histórica.

Durante uma expedição financiada pela Marinha chilena em 1879, o capitão britânico Juan Tomás Rogers batizou o glaciar como Francisco Gormaz, em homenagem ao diretor do escritório Hidrográfico do país andino. Mais tarde, em 1893, o geólogo alemão Rodolfo Hauthal, ligado à Comissão Argentina de Limites, o denominou Bismarck, em homenagem ao poderoso chanceler do Império Alemão, Otto von Bismarck. No entanto, foi somente em 1899 que, no âmbito dos estudos realizados para o Instituto Hidrográfico Argentino, o tenente Iglesias deu um nome que o ligava diretamente à Nação Argentina. Em tempos em que cada ponto geográfico podia inclinar a balança diplomática, batizá-lo de “Perito Moreno” significou, além de justo, bastante estratégico…

A subdivisão do Território Nacional de Santa Cruz – criado em 1884 após a sanção da lei que formalmente incorporou a região patagônica ao domínio nacional – foi concretizada em 1903, com a exceção do extremo sul, que já havia sido distribuído. Antes que o processo começasse, um decreto de 4 de outubro de 1902 designou nove chefes encarregados de liderar as comissões, que deveriam delimitar treze áreas nos territórios nacionais de Rio Negro, Chubut e Santa Cruz.

Cinco desses delegados foram designados para Santa Cruz. Entre eles estava Carlos V. Burmeister, que, em 6 de julho de 1904, registrou na cartografia divisória correspondente à região sul do rio Santa Cruz o assentamento de Remigio Ortiz, em torno do qual com o tempo uma cidade seria erguida. Nos dados complementares, Burmeister apontou que as populações do interior se comunicavam com os portos de Santa Cruz, Bahía Coy e Puerto Gallegos por meio de caminhos rudimentares. A divisão da terra, em um território com vastas áreas ainda pouco exploradas, foi traçada em forma de tabuleiro sobre o mapa, por linhas retas que muitas vezes não acompanhavam os acidentes geográficos nem as realidades sociais ou econômicas da região.

No início do século XX, novas fazendas começaram a se estabelecer na região. A vida não era fácil: a distância de tudo, o isolamento profundo e a rudeza do clima exigiam um temperamento especial. Ainda havia trilhas abertas pelo passo dos animais ou pela insistência das carroças.

Em um mosaico de histórias anônimas, os pioneiros foram deixando sua marca: construíam galpões, perfuravam poços e tosquiavam à mão. Dormiam em catres improvisados, aqueciam a água com lenha e teciam sua própria rotina em meio ao silêncio. Às vezes, apenas o assobio do vento ou a visita de algum vizinho, que poderia levar semanas para aparecer, quebrava a monotonia.

No entanto, a beleza da região – com aquele lago de cor impossível, as montanhas nevadas e a proximidade dos glaciares – já havia começado a atrair viajantes ávidos por aventura. Entre esses visitantes singulares, estava Hesketh Prichard, correspondente do Daily Express de Londres, que percorreu a região em busca de evidências da existência do milodonte, com resultado adverso. Nove meses de viagem: quilômetros e quilômetros percorridos a cavalo, a pé e pura obstinação. E claro! Sem um único milodonte à vista!

Os primeiros a povoar os campos do Cerro Buenos Aires foram os britânicos William Game e Ernest Cattle, anos antes de começar o novo século. Quando Game se aposentou, Cattle se associou a uma mulher singularmente conhecida como Mister Jack, com quem manteve a exploração de gado até venderem em 1913.

Também outros britânicos circulavam pela região. Alguns viviam em acampamentos móveis, seguindo o ritmo do gado ou procurando o melhor lugar para se fixar. William Wallace e Walter Reeves se instalaram na península, até transferirem seus direitos a Samuel Seawright. Este, por sua vez, se associou a Robert MacDonald, formando uma dessas alianças práticas que se formavam no início de qualquer empreendimento rural. Eram tempos de acordos de palavra, carroças e couros leves. Não havia muito espaço para erros: os invernos não perdoavam, e cada ovelha contava.

Percival e Jessie Masters, moradores do Lago Argentino

O inglês Percival Masters se estabeleceu no Lago Roca, em terras que em 1905 seriam povoadas por seu compatriota Guillermo Payne, e posteriormente se mudou para o norte do lago. A essa mesma geração inicial juntaram-se Claudio Waring e Jorge Drew. Alguns deles seguiriam seu caminho e se estabeleceriam em diferentes cantos do território.

Entre os argentinos, perto do arroio Calafate, instalaram-se os irmãos Remigio e Carmen Ortiz. Remigio – cujo assentamento foi marcado por Burmeister no mapa publicado em 1904 – assumiu funções como comissário de polícia do território, enquanto Carmen, criado pelo pai daquele, era responsável pelo cuidado de éguas e bovinos.

Na região norte do lago, instalou-se Rufino Barragán, outro argentino. E como se a geografia não bastasse para marcar a diversidade, colonos de diferentes nacionalidades chegaram também: entre eles, italianos, espanhóis e croatas. Daí em diante, a vida nesses campos começou a ser povoada por novos nomes e sotaques. Aos poucos, outros se juntaram à tarefa de domesticar a solidão.

Agora, vamos dar uma olhada nos modestos edifícios que delinearam o povoado urbano do Lago Argentino. Quem diria!

As carroças carregadas de lã partiam das fazendas em direção aos pontos de coleta, percorrendo longas distâncias por estradas de terra. A cada três ou quatro léguas era necessário fazer uma parada em algum ponto, o que levou ao estabelecimento de pequenas pousadas ao longo do caminho. Lá, onde havia água e, com sorte, uma fazenda que oferecia abrigo e algumas mercadorias, os viajantes encontravam um alívio antes de continuar sua jornada.

Conta-se que o ponto que estamos tratando ficou conhecido por um arbusto de calafate que crescia com tanta presença próximo ao arroio, que acabou roubando toda a atenção. Era tão visível, que os carroceiros passaram a se referir ao local como “Onde o calafate”. Muito perto desse ponto, o primeiro assentamento permanente foi iniciativa do pioneiro francês Armando Guilhou, que ergueu um rancho de adobe e abriu um bar de campo. Nesse canto, os condutores encontravam provisões básicas, algumas conversas entre goles e a pausa necessária antes de seguir em frente.

Guilhou, porém, não ficou para sempre. Em 1913, vendeu sua propriedade para os irmãos Pantín, seu cunhado Cecilio Freile – espanhóis vindos de La Coruña – e seu compatriota Guillermo Cantín. Foram eles que reabriram o bar e acrescentaram uma pequena estalagem, que logo se tornou a parada mais movimentada da início da estrada cordilheirana. Em 1915, Freile e Cantín se independizaram ao se mudarem para a foz do rio Mitre, onde fundaram um hotel com características similares.

Enquanto isso, em outros pontos estratégicos da região, a infraestrutura também florescia. Em Paso Charles Führ, a Sociedade Anônima Importadora e Exportadora da Patagônia havia instalado um ponto comercial com hotel e serviço de balsa na foz do rio Santa Cruz. Essa filial estava sob os cuidados do imigrante de Zaragoza Jerônimo Berberena.

Até a década de 1940, a atividade madeireira predominava no Lago Argentino. Várias barcaças transportavam toras da serraria na Península Avellaneda até Punta Bandeira.

Mas, após as greves rurais conhecidas como a Patagônia Trágica, os ventos mudaram. Em 1924, La Anónima decidiu transferir sua sede completa de Charles Führ para o incipiente assentamento que, alguns anos depois, adotaria o nome de El Calafate. Assim, com o tempo, novas construções se somaram ao espalhado povoado, animado por ovelhas retardatárias, bois cansados, carroças rangentes de madeira e arbustos que balançavam ao ritmo do vento.

A população que tinha começado a perfilada de forma inesperada foi fundada oficialmente apenas em 7 de dezembro de 1927, por decreto do presidente Alvear, com o objetivo de consolidar o povoamento da região. A comunidade era pequena, apenas um punhado de moradores dispersos, e muitos anos passariam antes que tivessem uma administração local.

A primeira Comissão de Fomento de Lago Argentino foi instituída em 30 de abril de 1931. A iniciativa de vários moradores levou o governador do Território Nacional de Santa Cruz, Coronel Rafael Lascalea, a emitir a resolução n° 15.797, criando a Comissão de Fomento do Lago Argentino. A presidência ficou a cargo do Dr. José Alberto Formenti, médico responsável pela sala de primeiros socorros, que mais tarde se transformou no Hospital Rural Lago Argentino.

Assim, o vento do sul, carregado de histórias, foi testemunha de como a pequena aldeia, comumente chamada Lago Argentino, recebeu seu “novo” nome. Esse, é claro, refere-se ao arbusto espinhoso de pequenas frutas roxas que, segundo a lenda Tehuelche, quem as experimenta uma vez… sempre volta.

Os anos se passaram e, entre a quietude dos dias e as noites estreladas, El Calafate começou a tomar forma, com suas ruas de terra, sua gente simples, sua vida ao ritmo do vento e do silêncio. Mas o destino, como um rio que flui lentamente, tinha outros planos…

Alex Barsa

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