O restaurante que opera na última locomotiva inglesa que funcionou na área

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Foi conservada a madeira original do interior do vagão e foram adicionadas mesas. “Em gastronomia, zero. Não sabia de nada”, confessa Sérgio Randazzo apoiado nas barras laterais da Whitworth, a máquina inglesa com mais de dois séculos, localizada sobre os trilhos que ele mesmo instalou em seu parque. “Mas quando o desejo é forte, tudo se encaminha”, diz com um toque de romantismo, enquanto aponta para a entrada do Rincón Soñado, o complexo da localidade de Sierras Bayas (Olavarría) com 13 cabanas, eucaliptos centenários e uma horta à qual ele recorre diariamente em busca de verduras frescas. Os talharins verdes com cogumelos são um destaque do menu. Os visitantes vêm aqui atraídos pelo singular restaurante localizado em um vagão reciclado atrás da locomotiva, estacionado na plataforma que antecede a estação que também construiu, ao lado de salas de máquinas, banheiros e, claro, uma cozinha. A parte interna do vagão, onde as mesas são preparadas como nos salões dos famosos comboios, foi restaurada respeitando a madeira como material principal, e abriga os aromas do forno de barro, cujos pratos de essência campestre homenageiam a região. Paira um ar calmo, já sem clientes até a tarde, quando o restaurante se transforma em casa de chá. A locomotiva e o vagão estão estacionados na plataforma que antecede a réplica de uma estação. “Como todo louco, gosto de superar barreiras, e aqui houve mais do que nos trilhos”, diz contemplando as colinas que surgem de seu terreno. Randazzo era funcionário da cimenteira Loma Negra, e em 2004 seu irmão chegou com a notícia da venda da propriedade Toffoletti, uma família pioneira nas pedreiras por volta de 1900. “A esses italianos ninguém parava, montaram uma fábrica de cal com casas para todos os seus filhos, e deram abrigo a Marcelino Catriel, cacique da dinastia da pampa que o governo de Nicolás Avellaneda havia liberado após vencê-los. Este solo que pisamos foi sua última moradia, quando o velho Toffoletti lhe devolveu um pouco de sua dignidade ao nomeá-lo responsável pelos cavalos da propriedade. Eram esses animais que levavam os blocos de pedra ornamental até o trem”, relata. “Este lugar estava carregado de mistério, era uma espécie de emblema quando éramos crianças, então colocamos até o último peso com meu irmão Fabián e compramos”, continua. Eles levaram vários anos para nivelar, valorizar o parque e acomodar as cabanas, mas por volta de 2010 já havia quatro casas disponíveis e impecáveis. “Estávamos felizes, mas eu sabia que faltava algo distintivo. Um dia, durante um churrasco com amigos, pensei na história do local, nas pedreiras, e me levantei. Peguei as chaves da caminhonete e fui para o ferroviário. Após três meses saindo com o mate pelas cidades e batendo de porta em porta, vi em Santa Luisa o vagão de 26 metros com furgão”, relata com o rosto iluminado. Tudo aquilo pertencia ao Estado Nacional, mas foi aí que um concurso para empreendedores da Universidade de Buenos Aires lhe abriu o caminho. Ele concorreu e ganhou, e com o primeiro prêmio veio também a aprovação da prefeitura para transportá-lo, embora ainda fosse necessário o transporte. “Levá-lo exigia autorizações do pedágio, da Viação Nacional e da polícia para nos escoltar. Tudo foi sendo adiado, então tive uma ideia alternativa: desmontar as rodas do vagão e carregar a parte traseira em um carroção, e levá-lo 50 quilômetros pelo campo com um guindaste e um caminhão. Foram duas travessias um pouco complicadas, incluindo uma queda em um antigo poço cego de uma fazenda, mas conseguimos”. “Estávamos felizes, mas chegou a carta da cimenteira onde fui demitido. Não houve muita explicação. Eu associei a certas mesquinharias políticas e empresariais, porque estamos diante de uma fábrica de cal e várias vezes apresentei reclamações por irregularidades. Mas talvez tenha sido apenas inveja, que costuma ser problemática nas cidades”, teoriza. Eventualmente, em 7 de novembro de 2014, dez anos após conseguir o terreno, o restaurante abriu suas portas. “No início eu não sabia nada sobre gastronomia além de comer. Mas minha filha Agustina é chef, e foi ela quem liderou a cozinha até 2020. Com apenas dois ajudantes, ela preparava pratos tradicionais com um toque muito pessoal e bem decorados”, continua. Naquela época, sem reserva, era impossível almoçar ou jantar lá, e logo se estabeleceu como um dos melhores restaurantes da região. “Mas a pandemia nos deu um tapa na cara. Quando voltamos a abrir timidamente a hospedaria, minha filha retomou a parte gastronômica como casa de chá, mas um problema em sua saúde a afastou. Foi aí que eu peguei junto com Lorena, minha parceira, que é quem atualmente elabora o cardápio, com muita dedicação. Mas apenas abrimos nos fins de semana porque não damos conta”, diz. Estes pratos atuais, como ele mesmo descreve, não se destacam pela perfeição, mas sim pela abundância. Todo o salão e as mesas do vagão são destinados a 220 lugares, tornando-se um local frequente para celebrar casamentos e outros eventos. “Essas são oportunidades em que o lugar deixa de ser íntimo e se transforma em uma espécie de festividade, com música ao vivo e longas sobremesas”, conta Randazzo. Embora o negócio vá bem, “tudo tem o seu ciclo”, repete Randazzo, que atravessa uma espécie de luto programado. Suas filhas têm outros projetos, e a continuidade da propriedade requer um esforço significativo para um casal com seus anos. “Estou satisfeito porque criamos uma alternativa para minha cidade, algo que soma e não extrai, como a mineração. Mas logo chegará a hora de soltar e ver de fora algum outro maquinista com energia renovada”.

Alex Barsa

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