Ortiba ou ortiva? Netflix recorre ao “vesre” para promover a série de Tim Burton

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Alguns dizem que a Netflix brinca com a apropriação cultural. Para promover a segunda temporada de Merlina, dirigida por Tim Burton, desta vez recorreu ao lunfardo. “Nasci assim, com o coração ortiva”, lê-se nos cartazes da série estrelada pela atriz americana Jenna Ortega, que interpreta a adolescente Wednesday Addams, a caçula da família Addams.

A usuária X @paternat postou uma foto do cartaz, tirada no bairro de La Paternal, e opinou: “Netflix se meteu em apuros e promove em lunfardo. Ortiba é o ‘vesre’ de batidor, o que delata”. “Além disso, mal aplicado”, acrescentou a atriz e roteirista Malena Pichot. Muitos concordaram que “ortiba” deve ser escrito com be longa e não com ve curta. No entanto, os usos populares marcam as “oscilações ortográficas” das palavras ao vesre.

No Dicionário de americanismos da Associação de Academias da Língua Espanhola, “ortiba” ou “ortiva” é definido como um substantivo ou adjetivo que pode ser usado como “delator” ou “dedo-duro”. Será o caso da heroína recriada por Tim Burton? O jornal LA NACION consultou dois destacados pesquisadores e “lunfardólogos”.

“De fato, ortiba é o vesre de batidor, como diz o post – responde o filólogo, poeta e acadêmico Oscar Conde, membro da Academia Porteña do Lunfardo e da Academia Argentina de Letras. Portanto, deve ser escrito com be longa. Mas sempre digo que o lunfardo é uma linguagem popular e não há ninguém para resolver regras ortográficas, como a Real Academia Espanhola faz com o castelhano. Assim como sarparse, que é o vesre de pasarse, e muitos usam com zeta, zarparse. Quanto ao uso no cartaz de ‘ter o coração ortiba’, a palavra não é mais usada apenas como delator, mas como alguém que se opõe aos seus desejos ou ao que se espera que faça. Se alguém diz que não pode ir jogar uma partida de futebol à noite na quadra, é um ortiba; nesse sentido, poderia ser. A ve curta faz um barulho incrível, é verdade”.

A pesquisadora e membro da Academia Porteña do Lunfardo, a professora Andrea Bohrn, concorda com Conde que o uso original de “ortiba” tem se perdido. “Ou mudando”, destaca. “Muitos vesres adaptam seu significado após a inversão; algo semelhante acontece com hotel e telo, que se transforma em um tipo de hotel; ou mulher e jermu, bruja u jabru, para se referir a ‘parceira feminina’. Como não há uma entidade que regule a ortografia, os falantes vão tomando as decisões que consideram corretas e essas mudanças ajudam a obscurecer a etimologia do vesre. No caso de ortiba/ortiva, passou de delator a mal-humorado, cortado, agretado”.

“O uso atual de ortiba/ortiva transcende a questão de delator do verbo genovês bater”, acrescenta Bohrn. “Há outros sentidos latentes, como agreta ou pessoa que não entra na brincadeira, para dizer de forma lexicográfica”.

Para a pesquisadora, na publicidade contemporânea há uma tendência a abusar das expressões do lunfardo “para atrair o consumidor”. “O cartão VISA usava garpar para pagar; para uma sobremesa era usado confite para confiança. Nessa ideia de aproximar os produtos dos consumidores e de levar em conta a forma própria de falar de cada região, são apresentados recursos que de certa forma alcançam o objetivo”. Para a promoção da série na Argentina, a Netflix foi além da linguagem e tingiu de preto um lugar emblemático como Caminito, em La Boca, com permissão do governo portenho.

Para anotar: No sábado, 6 de setembro, a partir das 15h30, será realizada a jornada “O lunfardo no século XXI” na Academia Porteña do Lunfardo (Estados Unidos 1379), com entrada livre e gratuita. Haverá palestras e atividades a cargo dos acadêmicos da entidade presidida pela historiadora Ema Cibotti.

Alex Barsa

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