Há anos que os vejo aqui, todos os dias juntos. Ela limpava a calçada, ele conversava com os vizinhos na praça. Fazíamos coisas juntos: cortar galhos, pedir coisas à comuna. Estavam sempre desde a manhã até o meio-dia ajudando o bairro”, conta Raúl Tolosa, encarregado da Federação Solidária de Aposentados e Pensionistas, à LA NACIÓN. Fala com o olhar fixo na casa de tijolo aparente da rua Sanabria 3768, em Villa Devoto. Sempre que menciona Demetrio De Nastchokine e Graciela Just, seus olhos ficam cheios de lágrimas.
Raúl os conhecia de todos os dias. A sede dos aposentados funciona bem a alguns metros da casa da família. Demetrio, de 79 anos, e Graciela, de 74, viveram ali a vida toda. Demetrio era professor de Ciências Econômicas, licenciado em Administração, mestre em Educação, professor do Colégio Militar da Nação, diretor do curso de Administração e coordenador de publicações acadêmicas. Mas para Raúl era mais simples: “Para mim era Demetrio, o vizinho de sempre. Aquele que saía com a vassoura. Aquele que me chamava de chefe com carinho. Conversávamos todos os dias”, diz, com a voz embargada.
Junto com Demetrio e Graciela estavam seu filho Andrés, de 43 anos; sua nora Marie Lanane, de 42; e sua neta Elisa, de quatro anos. Os cinco morreram intoxicados pela inalação de monóxido de carbono. O único sobrevivente foi o filho mais novo de Andrés e Marie, um bebê de um ano, que continua internado no Hospital de Crianças Ricardo Gutiérrez.
Enquanto isso, do lado de fora, a casa ficou fechada. Os vizinhos se aproximaram sem entender como uma família inteira poderia ser ceifada de um dia para o outro. Foi então que apareceu o terço branco, pendurado na fechadura do portão preto. Foi colocado por um vizinho no mesmo dia, sem dizer uma palavra. Desde então permanece pendurado, movendo-se minimamente quando o vento sopra. Para muitos, é a única forma de permanecer perto daqueles que já se foram. Para outros, um lembrete de que Devoto continua de pé, mas com uma nova ferida.
“Era uma linda família”, diz Laura, uma vizinha, da calçada em frente. Fala baixinho, com a voz embargada e os olhos marejados. “Demetrio e Graciela eram pessoas maravilhosas. Falavam sempre dos filhos e netos. Os amavam. É uma tristeza para o bairro”, conta Laura à LA NACIÓN enquanto observa a fachada e volta a baixar o olhar.
A casa de la família De Nastchokine
Gustavo, outro vizinho, não morava na quadra mas sempre estacionava em frente à casa. “Eu não sou dessa quadra, venho ao centro dos aposentados. Além disso, trazia meu neto para uma escola de inglês que fica ali perto. Vim três ou quatro anos, segundas, quartas e sextas-feiras. Enquanto esperava, eu me sentava nos bancos da praça ou no carro. Conheci Demetrio assim. Sempre saudava, vinha para a praça e conversávamos sobre o bairro ou futebol”, contou Gustavo à LA NACIÓN. Suspira, olha a grade e o terço e repete: “Tenho ele muito presente. Não consigo acreditar”.
Delia, ex-diretora de uma das escolas onde Demetrio lecionava, o conhecia por se cruzarem todos os dias. “Eu ensinava geografia e ele contabilidade”, contou à LA NACIÓN. “Depois fui reitora. Não sei se quando fui reitora ele continuava, porque trabalhava em várias escolas. Morava a três quadras. Sempre que me via, me dizia ‘Olá, professora’. Era assim. Não sabes o que ele era, era um amor. Por isso me dá tanta pena. Pensar que não vou mais vê-lo… não consigo acreditar”, disse, com a voz embargada.
Sanabria, entre Pedro Morán e Ricardo Gutiérrez, permanece fechada. A casa está igual: térreo com todas as janelas fechadas e com grades, primeiro andar com uma persiana entreaberta e as cortinas fechadas. Uma placa no pilar direito avisa “Perigo elétrico em reparação”. A fita policial ainda pendura frouxa de um arbusto. Na calçada se acumulam folhas secas que ninguém varreu desde aquele dia. O poste de luz permanece aceso, como se ninguém tivesse coragem de apagá-lo.
A chegada de Andrés, Marie e os pequenos da Itália era uma alegria para todos. Alguns vizinhos viram cartazes de boas-vindas. Outros ouviram risadas, passos, uma família reunida. Ninguém imaginou que aquela visita seria a última. “Nunca me disse que o filho vinha da Itália”, repete Raúl, olhando a casa vazia. “Não sabia de nada. Mas ele estava contente. Sempre estava contente, então a visita de seu filho com certeza os deixou felizes. Os vizinhos me contaram que ele amava muito seus filhos e netos”.
Villa Devoto, um bairro que continua de pé, ainda que a rua pareça parada. Um bairro que para diante da grade, que atravessa a calçada e torna a olhar. Que baixa a voz ao passar, como se não quisesse perturbar o silêncio que ficou dentro da casa. Ninguém fala “as vítimas”. Dizem Demetrio, dizem Graciela, dizem “os pequenos”. Dizem que eram bons. Que eram queridos. Que eram uma grande família.